O carrinho de devoluções e a conta que tenta achar o que foi para o ar
A biblioteca já estava fechada. Sob a luz a piscar, empurrei três carrinhos: estantes, arquivo no porão, mesa de troca. Somei as devoluções e contei de novo. Faltavam alguns livros, e eu precisava dizer onde foram parar.
Aí pensei num caderno do mundo. O dióxido de carbono que a gente solta é como livros que entram. O ar é a mesa de troca, o mar é um depósito longe, e plantas e solos são o arquivo. Só dá para cuidar do que dá para contar, lugar por lugar.
O lance é que cada canto tem o seu registo. Uma lista vem de combustíveis e fábricas, outra de mudanças na terra, outra de medições do ar, e outras tentam adivinhar o que mar e terra puxam. Quase bate, mas sobra sempre um restinho, e num ano só isso aparece mais.
Numa atualização recente, o caderno ficou mais justo de comparar. Entrou um ano completo e uma conta rápida do ano em que a COVID-19 travou muita coisa. E a parte da terra deixou de mostrar só o saldo: passou a separar o que sai quando se corta ou queima do que volta quando a vegetação cresce.
Teve outro ajuste pequeno. Cimento velho pode puxar de volta um pouco de dióxido de carbono com o tempo, então a conta de combustíveis e indústria ficou um pouco menor. No meu balcão, seria notar que alguns livros voltam sozinhos para o carrinho certo, dias depois.
Quando fecho a conta de muitos anos, dá um aperto. Uma boa parte do que entra fica no ar, e o resto se divide entre mar e terra. Em anos com grandes incêndios, a prateleira da terra fica mais bagunçada. E ainda há cantos difíceis de fechar, como regiões frias e o oceano do sul.
No ano do travão, as “entregas” de combustíveis caíram, mas o ar continuou a encher. Eu olhei para os três carrinhos e para o caderno. Um dia mais calmo muda o movimento, mas o stock só baixa quando a rotina muda de verdade, sem esconder o que entra e o que sai.