O bilhete escondido na fila de cacifos
Ela parou diante de uma fila comprida de cacifos no centro desportivo, gente a passar apressada. Uma amiga escondeu um bilhete num deles. O jogo era abrir alguns e seguir as pistas lá dentro. Aquilo parecia com treinar um sistema de texto a adivinhar palavras em falta: a ordem da procura muda o que se aprende.
Ela começou como sempre faz, a andar num sentido só, a abrir um após o outro. Dava para avançar, mas perdia pistas que estavam mais à frente. No texto, é como tentar adivinhar a próxima palavra olhando só para as palavras de trás, mesmo quando as da frente deixariam tudo claro.
Aí ela teve outra ideia e colou post-its por cima de algumas etiquetas, para “fingir” espaços em branco. Parecia justo, porque dava para olhar para os dois lados. Mas olha, aqueles post-its não existem nos cacifos de verdade. E quando tapava vários, acabava a adivinhar cada um como se os outros não mexessem na pista.
Então veio o truque novo: não mexer na fila real dos cacifos, só mudar a ordem das adivinhas. Às vezes ela tentava adivinhar um cacifo depois de já ter aberto alguns à esquerda e alguns à direita. No texto, o lance é esse: a frase fica igual, mas a prática troca a ordem de quais palavras são adivinhadas, sem usar um “tapa-buraco” falso. Leva a uma adivinha mais parecida com a vida real.
Para não ficar interminável, ela não tentava adivinhar tudo de cada vez. Ela escolhia um pedaço da fila, ali perto do fim da ordem que tinha escolhido, quando já tinha mais pistas na mão. Muitas vezes pegava num trecho de cacifos vizinhos, porque as pistas vinham em conjunto, não soltas.
Só que apareceu uma confusão: com um bloco só de anotações, ela esquecia qual era o cacifo-alvo daquele momento. Dois alvos podiam ter as mesmas pistas à volta, mas pediam respostas diferentes. Ela resolveu com duas folhas: uma só com os factos do que viu, outra só a apontar o alvo. A folha do alvo não podia “espreitar” dentro do próprio alvo.
Quando a fila continuava pelo corredor, ela guardava um montinho de notas antigas em vez de recomeçar do zero. Assim, uma pista lá do início ainda ajudava mais à frente. No fim, ela percebeu a diferença no corpo: sem post-its e sem caminhar num sentido só, as pistas paravam de brigar entre si e começavam a encaixar.