A foto cheia de areia que virou rosto, aos poucos
O ecrã do telemóvel acende com uma foto que parece ter passado numa tempestade de areia. Eu arrasto a barra de “restaurar” e a cara aparece devagar, grão a grão. Fica claro o truque: limpar em muitas passagens pequenas, não num salto só.
O problema era fazer uma imagem nova que parecesse de verdade, sem ficar plastificada nem borrada. Muita coisa antiga tentava adivinhar a imagem inteira de uma vez, e os errinhos viravam texturas estranhas. Era como tentar salvar uma foto arruinada com um único deslize.
A ideia nova começa do lado oposto. Em vez de partir de uma foto, parte de puro chuvisco e vai limpando aos poucos até surgir uma cena. Pra isso, existe um caminho conhecido que estraga uma foto, colocando mais e mais grão, e um “restaurador” que aprende a voltar por esse caminho.
A virada mais esperta foi mudar a pergunta em cada passo. Em vez de pedir “qual é a foto mais limpa agora?”, pede “qual foi o grão que eu acabei de pôr?”. Quando o restaurador acerta o grão certo, basta tirar esse grão. Aí os detalhes param de virar chute.
Na hora de treinar, não precisam passar por todas as limpezas miudinhas em sequência. Pegam uma foto boa, escolhem um nível de grão ao acaso, colocam esse grão de uma vez e pedem pro restaurador apontar exatamente o que foi colocado. Se você sabe o que sujou, dá pra medir se ele reconheceu.
Quando chega a hora de criar uma imagem, o processo faz o que a barra do telemóvel faz na vida real: começa com só estática e repete pequenas limpezas muitas vezes. No começo aparece o “mapa” da cena; depois vêm bordas; no fim, texturas. O lance é que várias correções gentis vencem uma agressiva.
Com o truque de adivinhar o grão e com esse treino mais simples, as imagens ficaram bem convincentes pro seu tempo. Olhando a foto no ecrã, dá pra sentir a diferença: não é uma aposta num palpite perfeito. É uma sequência de acertos pequenos, tirando o ruído certo na força certa, até a imagem se revelar.